sexta-feira, 3 de junho de 2011

Constranger ou não constranger, eis a questão...

Com certeza, todos nós já ficamos “boiando” em alguma situação ou ambiente em nossa vida. É chato, constrangedor e podemos até ficar magoados. Quando me lembro das situações constrangedoras que passei, sinto que ninguém deve constranger o outro, pois é até humilhante. Mas, olhando para Jesus e como compartilhava a palavra percebo que devemos provocar este constrangimento nas pessoas por um aspecto e em outro aspecto devemos evitar, ao máximo, constranger alguém.

Como devemos constranger as pessoas?

Jesus constrangeu as pessoas que ouviram suas mensagens e parábolas em diversas ocasiões. As pessoas muitas vezes não entendiam o que Jesus dizia, todo o significado de suas palavras e o mistério do seu reino ficou encoberto para muitos dos que o ouviram. Seus pais, seus próprios discípulos, os religiosos, as autoridades e o povo não entendiam tudo o que Jesus falava. O mesmo aconteceu com seus discípulos quando começaram a pregar como Jesus, e vemos este mesmo constrangimento sendo provocado até pelo versátil apóstolo Paulo por onde passou.

Este constrangimento é inevitável e necessário, porque o homem natural não compreende as coisas do Espírito, não consegue discerni-las espiritualmente e a palavra, com sentido espiritual, proferida incomoda a alma humana. É como se falássemos algo que as pessoas ouvem, não entendem totalmente as implicações, mas sentem um profundo impacto em suas almas, sentem que há algo especial nestas palavras que precisam conhecer. Como John Stott destaca ao citar em seu livro “Contracultura Cristã” a frase do Dr. Lloyd-Jones: "A glória do Evangelho é que, quando a Igreja é absolutamente diferente do mundo, ela invariavelmente o atrai. É então que o mundo se sente inclinado a ouvir a sua mensagem, embora talvez no princípio a odeie” ¹.

Não estamos falando de proferirmos palavras mágicas em uma língua incompreensível, mas emitirmos palavras nativas que remetem a um mundo muito maior do que as pessoas conhecem, a um destino muito mais abrangente do que vislumbram e a um ser muito maior do que tudo o que podem imaginar. Falar sobre o Deus Criador e Seu Filho Salvador é tocar num assunto que a mente humana por si só não consegue entender, muito menos aceitar. Por isto Jesus, seus discípulos e Paulo foram perseguidos e mortos, por suas palavras. Palavras que provocam a sede da alma, ou o ouvinte humildemente deposita sua fé naquilo que seus olhos e mentes não podem compreender totalmente ou se enche de ira egocêntrica. Pedro e João ouviram claramente a ordem: “Chamando-os, ordenaram-lhes que absolutamente não falassem, nem ensinassem em o nome de Jesus”. O apóstolo Paulo afirma: “A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder” (1 Co 2;4). Como Calvino dizia, a Bíblia é a Escola do Espírito. Nossas palavras bíblicas vão constranger, mas o Espírito é quem convence.

Como não devemos constranger as pessoas?

Jesus nunca constrangeu as pessoas pelo código que usou, mas pelo conteúdo profundo, desafiador e desconcertante de suas palavras. Em seu famoso Sermão do Monte (Mt 5-7), com palavras simples, comuns e compreensíveis, ele descreveu os valores profundos e humanamente intangíveis do seu reino. Jesus nos ensina que devemos facilitar o máximo para as pessoas a compreensão do Evangelho, porque seu conteúdo por si só já gerará profunda comoção ou repugnância. Esta transmissão de uma mensagem transcendente, divina e eterna decodificada para a linguagem de seres limitados e soberbamente resistentes é a essencial contextualização. Jesus, em sua encarnação, nos dá o melhor exemplo. Ele fez-se um de nós, falou a nossa língua, andou nas nossas ruas. Jesus evitou constranger-nos com um amor só pregado pelos anjos e com uma misericórdia só proclamada em sinais nos céus e nuvens sobre os montes. Jesus nos amou de perto e não de longe.

Não devemos constranger as pessoas por sermos estranhos a elas, por usarmos de uma linguagem que não tem em seu vocabulário, de nos vestirmos como se fossemos de uma casta distante, de nos comportarmos como se não tivéssemos nascido aqui e por aqui nunca andando. Não devemos constranger as pessoas com neologismos, sofismas (estas duas palavrinhas são o próprio exemplo), com palavras que um descrente não vai entender.

Uma coisa é alguém não entender o evangelho por não concordar com ele, porque a mensagem o humilha e exige sua entrega total. Outra coisa é alguém não entender o evangelho porque não entendeu o que o evangelista estava dizendo, sua linguagem, seu culto e suas tradições estranhas o inibiram.

Jesus usou elementos como luz, sal, terra, semente, água, pão, casamento, vinho, parto. Aprendamos com ele o uso das palavras de nosso tempo para anunciarmos as palavras eternas.

Duas Aplicações Práticas:
1. Se o conteúdo de suas palavras não constrange nunca um descrente, reveja seu vocabulário. Deus e seus mistérios precisam estar nele para tocar as pessoas.
2. Se a forma de seu conteúdo constrange o descrente, reveja seu contexto. Deus com seus mistérios se revelou de forma simples, não complique o recado de Deus.


Nota
¹ STOTT, John R.W. Contracultura Cristã. São Paulo: ABU Editora, 1982. 140p.


Tiago Leite

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