quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Vereda Luminosa


Ao longo do descampado jaz o corpo estirado ao acaso
O mal que assola em assombro grita o estrondo da agonia
Sangue que jorra pela boca aberta no suspiro
Susto que encerra em dor latejando em compasso


Quem dera fosse apenas um corpo numa parábola hipotética
Muito embora a hipótese despenca em analogia
A verdade nua é imbróglio inlúcido ou qualquer neologia
O certo é que o corpo ali estanque logo é palimpsesto
Pois o vento e o tempo varrem toda empatia
E um novo dia revela o nascer do desamor ainda.


A liturgia de Jerusalém não supera Samaria
Quando os sacramentos não amolecem as mãos
Toda cerimônia solene solenemente sobe em vão
O sacerdote não leva a oração em burocracia
E o levita absorto troca o serviço pela lataria
Onde estão os olhos daqueles que pregam colírio
Onde estão os bolsos dos que mercadejam sacrifício
Onde está o pão dos que jejuam twittando economia


Mas o corpo da presa de humanos conspurcados no instinto
Tanto dos que abatem ou dos que deixam caído
É suspenso em trânsito pelo movido do Espírito
Consolador é o adjetivo e Amor é o trabalho
O que alivia o cansado e mata a fome do faminto
Ali no deserto prova o sacrifício insuperável da ação concreta
Da fé tida subjetiva mas que é resiliente e não funâmbula
Pois se apresenta segura na lei não impressa em publicidade
Mas o bom samaritano glorifica a Deus de verdade


Rompe a aurora de uma nova vida em terno enternecer
Aquele que levou a cruz inspira outros a fazer
E o segundo templo de Salomão não pode conter a epifania
Mas a florescência do amor em fulgor indizível
É a própria encarnação da Lei de Cristo
Saber quem é o próximo não é vereda luminosa
Ser de fato o próximo de alguém, foi do Mestre a resposta.


Baseado em Lucas 10:25-37
Tiago Leite

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A felicidade

A felicidade é tola mas tão conveniente, quando o sorriso da gente ignora a dor latente lá dentro insistente. A felicidade é pouca mas tão abundante, volta e meia saltitante, modifica tanto num instante. A felicidade é um choque mas corre tão passageira, logo embarca em movimento no despenco na ladeira. A felicidade é seletiva mas tão abrangente, vai contagiando metida a face de tanta gente.

A felicidade é robusta mas é tão dependente, se as raízes forem profundas fazem do hoje um presente. A felicidade espanta mas é tão atraente, o medo se mistura com um desejo ardente. A felicidade alucina mas se apresenta em lucidez, o coração acelera mas a mente é que sente cada vez. A felicidade é real mas pode ser tão ilusória, vira e mexe ela engana e não passa de estória.

A felicidade é um laço mesmo sendo tão confiante, ela pode cegar os olhos deixar o amor tão distante. A felicidade é um alvo mas também um meio de vida, ela não tem um lugar certo é agente da passiva. A felicidade é um beco mas tem muitos rumos, ela está longe de ser um navio em porto seguro. A felicidade é relativa mas também é coisa única, ela tem muitos clones mas há só uma saída.

A felicidade de Hera é a mais conhecida, ela se apresenta como afago para um egoísta. A felicidade é mentira quando se esconde do amor, nesta versão hedonista no final, dor. A felicidade é verdade quando se é consciente, ela só sobrevive num estado contente. A felicidade é visão para o que é cego no espírito, perdido em sua ambição, sufocado por seu livre arbítrio.

A felicidade é certeza quando não se constrói na areia, ela é a compreensão de uma vida inteira. A felicidade é a segurança do início, do meio e do fim, ela esclarece o propósito de se estar aqui. A felicidade é revelada por Alguém e não por uma situação, ela não é fruto da vontade e do gosto do coração. A felicidade é a verdade que liberta da ilusão, ela é um estado de espírito, de mente e de razão.

A felicidade é escondida pela ganância do mal, ela é tão distorcida em sorriso superficial. A felicidade está presa em circunstâncias precisas, mas a verdade liberta a felicidade cativa. A felicidade nasceu antes de cada um de nós, ela não é um acidente em um bilhão de anos luz. A felicidade precede a todas as lutas da vida, ela flui abundante em Deus, o Espírito e Jesus.

Sim está é a felicidade, não sensação tão frágil e banal. A felicidade tem dono, tem criador afinal. A felicidade é a verdade da nossa existência, ela é visão certa da vida, muito mais do que uma experiência. A felicidade é lágrima, sangue e suor, ela é sorriso, alívio, é calor. Uma matemática do reino assim é a felicidade, consolo nesta vida e certeza da eternidade. A felicidade liberta para se andar em amor, na gratidão do espírito de quem crê no Criador. A felicidade é fé, é certeza e vitória, a felicidade é Cristo nossa esperança da glória.

Tiago Leite