Pedro nos ensina: “Porque assim é a vontade de Deus, que pela prática do bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos, como livres que sois não usando, todavia, a liberdade por pretexto da malícia, mas vivendo como servos de Deus. Tratai a todos com honra, amai os irmãos, temei a Deus, honrai o rei” 1 Pedro 2:15.
Uma oposição cristã é diferente das outras oposições. Ela é mais profunda, mais abrangente e muitas vezes mais dolorosa e invisível aos homens. Analisemos Pedro que seguindo o exemplo de Jesus fez uma oposição cristã.
A oposição cristã é mais profunda e combate as raízes do problema (pecado em nós e nos outros) mais do que apenas os fatores externos. Ela é mais respeitosa e compassiva. O Pedro que pegava a espada para guerrear havia aprendido a pegar a Bíblia e pregar, a usar sua vida para demonstrar. Deixou de atingir orelhas e passou a “atacar” o coração das pessoas. Como cristãos, para sabermos o que combater e como combater temos que nos lembrar da fonte da corrupção, da maldade inerente ao caráter humano. O Brasil é corrupto desde os seus primeiros habitantes na floresta, passando pelos tempos de família imperial e chegando até os nossos dias. A corrupção é um vírus alastrado desde o troco na padaria até o engravatado no congresso. É um problema tão profundo e arraigado que só pode ser corrigido com o tratamento profundo do Espírito. Quantos cristãos já se mobilizaram contra o adultério, a falta de respeito com os pais, a idolatria e a mentira. Estamos atacando a fonte ou a apenas a ponta do iceberg?
A PEC 37, o aumento das passagens de ônibus, os gastos excessivos e os desviados na Copa do Mundo são causas justas de oposição, justificam manifestações de insatisfação. Na verdade, temos inúmeras causas quanto ao nosso governo e seu sistema, muita coisa pode ser melhor. Há alguns anos enviei um documento a relatora da PL 122 protestando contra a criminalização da opinião. Compartilhei também de uma nota de protesto quanto a esta questão enviada ao Congresso por algumas igrejas. Fiz pouco, temos, como cristãos, feito pouco, admito. O povo de Deus não pode se omitir, tem que se posicionar, tem que ter opinião, precisa exercer seu papel profético de atalaia de Deus. Não podemos ser conhecidos como conformados e coniventes com o mal. Mas, onde começa o mal para o combatermos melhor e mais eficientemente? Tiago afirma: “De onde procedem guerras e contendas que há entre vós? De onde, senão dos prazeres que militam na vossa carne? Cobiçais e nada tendes; matais, e invejais, e nada podeis obter; viveis a lutar e a fazer guerras. Nada tendes, porque não pedis; pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres. Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tiago 4:1-4).
A oposição cristã é mais abrangente. O irritado Pedro não conquistou nenhuma vitória em suas causas em Jerusalém, não convenceu nenhum cidadão e nem mesmo Jesus. Mas, o Pedro moldado pelo Espírito mobilizou milhares de pessoas em Jerusalém. “Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum”. De nenhuma influência, agora Pedro tinha mais de cinco mil homens mobilizados contra a corrupção interna e externa em Jerusalém. E dali, esta influencia percorreu todo o mundo conhecido em poucas décadas. Uma revolução cristã! Ouvi uma senhora afirmando em uma entrevista que estava nas ruas nas diretas já e agora voltava às ruas porque o Brasil não mudara nada. Claro que é um exagero típico de muitos movimentos, uma vez que ela é funcionária pública, vive em Brasília e, com certeza, experimenta uma infraestrutura de classe média consideravelmente melhor do que há vinte anos. Mas, esta afirmação da cidadã comprova o fato de que mudanças conjunturais e melhorias no governo são importantes, mas não matam a fonte do problema, apenas o amenizam por um tempo. As mudanças de Cristo são eternas.
A oposição cristã é mais dolorosa e invisível aos homens. Uma análise humana poderia classificar a mobilização de Pedro como um fracasso, ele não conteve a opressão do Império Romano e foi condenado a morte. Mas, em pouco tempo, milhares de pessoas de Jerusalém até Roma e nos confins da terra experimentariam a revolução de Cristo diminuindo de suas vidas e de muitas comunidades as práticas injustas e a depravação moral.
Analisemos a manifestação dos profetas do VT que agiam sozinhos em seus protestos e faziam denúncias contra a violação da Palavra de Deus. Não quebravam nada, não pichavam nada, não xingavam ninguém, e o resultado para muitos deles, foi perseguição e morte. Jesus no templo agiu escatologicamente contra a corrupção na casa de Deus, contra a falta de testemunho do povo de Deus, foi uma manifestação contra a religião e não contra o Estado. Contra a corrupção que nasce no coração e não nas cátedras do poder político. Que tal uma passeata contra a corrupção da igreja evangélica brasileira e suas heresias pragmáticas? É fato que não vemos nenhum dos apóstolos e discípulos de Jesus omissos contra as autoridades, mas também não vemos nenhum exemplo da igreja no NT em passeatas ofendendo as autoridades e atirando pedras contra os palácios do Império.
Concluindo:
Cuidado com a multidão. A multidão não cristã não entende a origem da injustiça e ataca os problemas da forma errada. A multidão não cristã é vulnerável e vai acabar se opondo aos cristãos. Jesus foi recebido por uma multidão em Jerusalém que o aclamaram Rei (Mt 21). Eles esperavam que ele fosse sentar no trono do palácio e destituir a opressão romana. Eles queriam ser libertos da opressão e corrupção romana, mas não estavam tratando de sua própria corrupção e opressão. Como, por exemplo, a hipocrisia religiosa, a exploração do Culto e o preconceito com os doentes, as mulheres e os samaritanos. Mas, Jesus não foi ao palácio, ele foi ao templo e expulsou os mercadores. Esta mesma multidão que o aclamara rei, atiçada pelo Sinédrio, gritou crucifica-o e foi condizente com sua morte (Mt 26). A multidão que quis adorar Paulo e Barnabé em Listra, por terem curado um coxo, no mesmo dia apedrejou a Paulo até a “morte” em praça pública por terem sido atiçados por judeus vindos de Icônio e Antioquia (At 14). A multidão de Jerusalém, alvoraçada pelos judeus vindos da Ásia, agarraram a Paulo no templo e tentaram mata-lo (At 21). Cuidado, a voz do povo não é a voz de Deus, a multidão sem Cristo ataca os problemas no lugar errado e da forma errada. Cuidado porque os mesmos que podem estar ao seu lado reivindicando causas comuns, confusos, podem estar amanhã marchando em perseguição a valores cristãos.
Oposição e manifestação sim, sem um coração cristão, não.
Que temos que nos opor as injustiças temos. A grande questão não é deixarmos de nos opor, mas a forma como devemos atuar para ser uma oposição cristã.
Podemos nos envolver em passeatas e protestos pacíficos e democráticos, sim! Mas todo protesto sem paus, pedras e bandeiras partidárias está sendo necessariamente não violento e não partidário? Você vai marchar por quais causas? Será uma marcha com o testemunho de uma postura cristã? A oposição cristã é sem ódio (segundo Jesus, o ódio equivale a homicídio), sem xingamentos (linguagem torpe condenada pela Palavra de Deus, violência verbal), com amor e respeito incondicional (o amor e respeito incondicional para com qualquer ser humano, mas a rebeldia e anarquia são reprovados por Deus).
Marchemos, protestemos, não sejamos omissos, mas com uma oposição cristã, como a de nosso Mestre e a de Pedro. Relembrando: “Porque assim é a vontade de Deus, que pela prática do bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos, como livres que sois não usando, todavia, a liberdade por pretexto da malícia, mas vivendo como servos de Deus. Tratai a todos com honra, amai os irmãos, temei a Deus, honrai o rei” 1 Pedro 2:15.
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