quinta-feira, 7 de novembro de 2013

De quem é a dívida e quem pagou?

Recentemente, Rodrigo Constantino escreveu um interessante artigo com o seguinte título: “Menino mata os pais? A culpa é do videogame, claro!”. Cito alguns trechos:

"Essa mania que alguns têm de sempre buscar uma explicação reducionista para fenômenos complexos é mesmo cansativa. E eles sempre erram o alvo, pois buscam bodes expiatórios para retirar a responsabilidade de indivíduos. Objetos inanimados ganham vida, e se tornam os grandes culpados pelas desgraças. Armas matam, videogames assassinam, e os seres humanos se tornam autômatos, vítimas indefesas dessas forças exógenas malignas. É o que podemos concluir da fala do advogado Arles Gonçalves Júnior, presidente da comissão de segurança da Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (OAB-SP). Segundo ele, o garoto Marcelo Pesseghini, suspeito de matar os pais, a avó e a tia-avó e depois se suicidar, foi “influenciado” por jogar muito videogame e que o caso é “um divisor de águas” na crônica policial. Eis os indícios: O garoto usava a imagem de um assassino de videogame no seu perfil do Facebook há um mês. O suspeito havia trocado sua foto de perfil no dia 5 de julho, passando a utilizar a imagem de um matador do game “Assassin’s Creed”. Esta foi a última atualização de Marcelo na rede social. Pronto: culpa do videogame!
Não importa que o garoto, ainda adolescente, tenha aprendido a atirar e a dirigir com os próprios pais. Tampouco importa que inúmeros outros garotos passem horas jogando videogame, os jogos mais violentos do mundo, e depois sejam crianças amáveis incapazes de fazer mal a uma mosca. Países como Japão ou Canadá possuem milhões de crianças e adolescentes mergulhados em jogos violentos ou filmes repletos de sangue, e nem por isso saem atirando nos pais por aí. Não vou negar que a exposição a esses filmes e jogos possa ter algum grau de influência, mas isso será potencializado somente se houver predisposição, por algum outro motivo, ao crime. O ambiente familiar e a punição legal são muito mais importantes do que os filmes e jogos. Pode ser confortante jogar a responsabilidade de atos nefastos no colo dos objetos, mas isso é fugir da realidade. Videogames não matam ninguém de carne e osso. Armas tampouco matam. Quem mata é sempre um indivíduo, e ele deve ser responsável por isso".
http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/cultura/menino-mata-os-pais-a-culpa-e-do-videogame-claro/>

Há algum tempo atrás o filme de Mel Gibson, a "Paixão de Cristo" suscitou protestos por parte da comunidade judaica internacional. O estigma de culpados pela morte de Jesus incomoda os judeus há muito tempo e o filme de Gibson, de certa forma, enfatizou novamente a direta participação dos judeus na condenação e morte de Jesus Cristo no primeiro século. Entretanto, em uma breve análise panorâmica da soteriologia vétero testamentária percebemos que a morte de Jesus foi selada na história cronológica humana no episódio descrito em Gênesis capítulo três, quando o primeiro casal de humanos desobedeceu a Deus e comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal. Ou seja, a quebra da lei moral de Deus no Éden e não apenas o beijo de Judas, as mãos lavadas de Pilatos e a injusta alforria de Barrabás selaram a morte de Jesus.

Em uma análise ainda mais profunda da morte de Cristo, o apóstolo Paulo menciona em Gálatas 1:4 que “Jesus se entregou a si mesmo pelos nossos pecados, para nos desarraigar deste mundo perverso, segundo a vontade de nosso Deus e Pai, a quem seja a glória pelos séculos dos séculos”. Assim, a morte de Jesus foi voluntária, mas também determinada e substitutiva. Paulo afirma que mediante esta morte substitutiva os cristãos da Galácia podiam ter “graça e paz da parte de Deus, nosso Pai e do nosso Senhor Jesus Cristo” (Gálatas 1:3). Os judeus cristãos espalhados pela Galácia, por exemplo, deviam entender que só podiam ter paz com Deus devido a graça do perdão dos pecados que Jesus proporcionou morrendo pelos pecadores na cruz e nunca deviam pensar que teriam paz com Deus pelo simples fato de pertencerem a linhagem abraâmica.

A forma como entendemos nossa salvação, como toda teologia, incide diretamente na maneira como vivemos. Diversos momentos na história da igreja reforçam esta tese. Dentre outros, podemos citar a teologia filosófica desenvolvida por Agostinho de Hipona no quarto século, em que ataca a concepção pelagiana da participação sinergista na salvação. Agostinho em livros como, a Cidade de Deus e Confissões, enfatiza a percepção paulina da incapacidade humana de contribuir para própria salvação, evocando a desesperada e humilhante admissão de que dependemos unicamente da ação de Deus para sermos redimidos. Os seres humanos dependem tanto da iniciativa de Deus para serem salvos, quanto para responderem ao chamado a Salvação. No século 16, os reformadores repetem a ênfase agostiniana e as confissões reformadas, principalmente, defendem o entendimento monergista de nossa salvação atribuindo a Deus e, somente a Deus, toda a glória de nossa salvação. Em contrapartida, outras correntes da reforma como os radicais anabatistas pregavam a participação humana na salvação, e a famosa diferença da teologia soteriológica de Calvino e a de Armínio. Semelhantemente, temos Jonathan Edwards e George Withifield no século 18, defendendo a suprema graça de Deus como única responsável pela salvação em contrapartida a defesa de John Wesley do mérito humano. Posteriormente, no segundo grande despertamento americano no século 19, Charles Finney e outros avivalistas, provocam um despertamento mais centrado no mérito humano do que na soberania divina.

Como C. S. Lewis afirmava, todos fazem teologia de uma forma ou de outra, e esta afeta diretamente nossa maneira de viver. Recentemente, no dia 02 de Novembro, milhões de brasileiros foram visitar parentes e amigos queridos, e o que parece apenas uma homenagem tradicional brasileira no feriado de Finados, na verdade está embuído de uma teologia popular de que a morte física ainda não será o fim da oportunidade de se “trabalhar” pela salvação. Consequentemente, dentre outras implicações, a mais latente é que Jesus torna-se desnecessário. Como bem enfatizou o grande pregador Charles Spurgeon, o entendimento radical de um livre arbítrio humano, retira de Deus o mérito que é só dele quanto à nossa salvação. Estamos presos a uma natureza afetada pelo pecado, e a melhor versão de nós mesmos para este mundo é escondidos atrás de Cristo. Não será suficiente imitarmos os pés ou as mãos de Cristo, temos que de fato sermos assimilados pela própria mente de Cristo, que comandará cada impulso de nosso corpo. Cristo através de nós é a melhor versão que podemos ter de nós mesmos neste mundo.

Diante deste panorama bíblico de nossa extrema fragilidade moral e completa dependência da justiça de Cristo, podemos perceber melhor a razão da morte expiatória de Cristo. O primeiro homem, Adão, fez o que se faz até hoje, procurou se eximir de sua culpa. C. S. Lewis viu de perto a guerra religiosa, o ódio e a morte, poderia ter se tornado um cético violento e sádico, no entanto, como ele bem descreve foi surpreendido pela alegria, pela graça, pelo milagre do novo nascimento e a humildade do arrependimento. A grande questão nunca será arrumar outro culpado, esta não era a função do bode expiatório quando perambulava desesperado pelo deserto. O bode expiatório era a declaração tácita da completa culpa humana e da completa graça divina.

Quanto à legitimidade da substituição de um inocente por um culpado, pode-se evitar um perigoso terreno de especulação teológica, entendendo que não se trata aqui de um juiz humano, mas do criador soberano de todas as coisas que decidiu atribuir ao sacrifício de seu filho, o valor necessário à satisfação de sua justiça.

Tiago Leite

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