O primeiro concílio da igreja cristã em Atos 15, devido à controvérsia da conversão de não judeus (polarizada entre os apóstolos Paulo e Pedro), já revelava uma verdade que ainda hoje precisamos nos lembrar. A palavra de Deus é imutável e infalível, mas nós como intérpretes, somos mutáveis e falíveis. A palavra de Deus é profunda e extremamente rica, mas nós somos rasos de compreensão e pobres de entendimento. O mandamento de amar a Deus com “todo o nosso entendimento” continua um desafio. Daí se justificar que a cada domingo um expositor dedicado da Bíblia pode nos surpreender com percepções da verdade de Deus, implicações surpreendentes e aplicações contextuais mais adequadas ao nosso tempo. A Bíblia é a verdade de Deus, mas nós não a conheceremos completamente em nossa breve vida terrena. Desde as divergências de interpretações e aplicações no tempo da igreja primitiva até os nossos dias, a Palavra de Deus continua uma fonte inesgotável em nossa hermenêutica diária.
Além do engano interpretativo de Pedro, outros incontáveis exemplos ilustram a importância de não se subestimar a riqueza da Palavra de Deus. É preciso cuidado para não limitá-la a uma percepção precipitada e temporal, sem a devida profundidade em seu estudo e sem a devida contextualização de sua aplicabilidade. Como exemplo, observemos as frases de dois nativos registradas no processo de evangelização realizado por missionários ocidentais. Um evangelista indiano chamado Murthi afirmou: “não nos traga o evangelho com uma planta em um vaso. Traga-nos a semente do evangelho para plantarmos em nosso solo”¹ . William Towsend ouviu de um índio na Guatemala: “Se o seu Deus é tão esperto porque ele não aprendeu a nossa língua?”, esta pergunta o levou a dedicar treze anos de sua vida na tradução da Bíblia para a língua dos índios cakchiquel e posteriormente fundar a Missão de Tradução da Bíblia Wycliffe"² .
O princípio Sola Scriptura (só a Bíblia como regra de fé e prática), corretamente relembrado na reforma, não deve ser entendido simploriamente. Só a Escritura no sentido de ser somente ela como nossa base primordial de vida cristã. Mas, nunca Só a Escritura como se ela fosse um simples livro de receitas. Por exemplo, apesar dos reformadores destacarem o sacerdócio universal dos crentes e o princípio de qualquer pessoa poderia ter acesso a Bíblia e a sua compreensão clara, os reformadores e seus sucessores entenderam que um grupo seleto de estudiosos da palavra deveria pesquisá-la a fundo e facilitar seu entendimento para os leigos. É perigoso se entender que as compreensões e implicações da Palavra são facilmente dedutíveis e consensuais. Não tem sido assim em toda a história da igreja.
Alister McGrath³ cita o grande teólogo puritano John Robinson, que em 1620, pregou um sermão aos que estavam partindo para conhecer o Novo Mundo a bordo do navio Mayflower. Seu vigoroso discurso retratava os peregrinos partindo em uma viagem que os levaria não só a um novo mundo, mas também a uma nova apreensão da verdade. Eles seriam pioneiros espirituais e teológicos não só explorando o novo Mundo das Américas, mas também as novas percepções que encontrariam na Bíblia enquanto procuravam plantar o Reino de Deus em terras distantes. Uma frase sua repercute através das eras: “Estou verdadeiramente persuadido de que o Senhor tem mais verdades ainda a revelar em sua santa Palavra”.
McGrath faz uma leitura interessante deste aspecto do protestantismo: “Ser protestante é sair em uma peregrinação intelectual e espiritual que nunca está completa. Cada ambiente, cada geração, cada desafio força a comunidade de fé a reler a Bíblia, perguntando-se o que ela tem a dizer nessa situação que não disse em outra. Para o puritano Robinson, nenhuma pessoa, nenhuma era poderia jamais perscrutar totalmente as profundezas da Escritura. Por meio da orientação do Espírito Santo, novos desafios poderiam levar a novas percepções; acima de tudo, em relação às estruturas e à política da igreja. O que pode ser correto em uma situação ou para uma era pode não ser em outra ou para outra”4.
A igreja evangélica brasileira tem características diversificadas, assim como a igreja nativa africana e asiática. Somos fruto de uma dinâmica interação do protestantismo europeu e americano. Reformados, luteranos, anabatistas, anglicanos, metodistas, presbiterianos, congregacionais, episcopais, e, mais recentemente, o movimento pentecostal, transplantado dos Estados Unidos e adaptado em nossa cultura.
Fica cada vez mais evidente que algumas ideias protestantes tradicionais a respeito de arquitetura da igreja, estrutura denominacional, padrões de adoração, e até determinados valores e comportamentos morais (vestuário, cinema, futebol, namoro, teatro, dança e música já foram sem exceção, pecado em determinados momentos), com frequência, são pouco mais que construções culturais refletindo a bigorna de uma época antiga da cultura europeia ocidental e não a compreensão completa da verdade bíblica.
Entendo que o caráter de Cristo expresso nas bem aventuranças é atemporal, mas as implicações externas dele são expressas em códigos compreensíveis de nosso tempo. Exemplo: uma mulher ficar em silencio na igreja de Corinto supria naquele contexto a demonstração de um bom testemunho cristão. Hoje na mesma região o testemunho seria manifesto de outra forma. Diante disto, o que significa ser “padrão de procedimento para os fiéis” (1 Tm 4:12) aqui no Brasil, nas Filipinas, na Nigéria, na Coréia do Sul, etc., qual é a essência e a forma deste padrão?
Neste sentido, quanto à aplicabilidade dos princípios cristãos, devemos pensar no protestantismo como “semper reformandum”, sempre sendo reformado. Ou seja, o protestantismo localiza sua identidade no constante autoexame à luz da Bíblia e em sua disposição de se corrigir quando tomar a direção errada ou a situação mudar. O protestantismo seria visto como um método de aplicabilidade bíblica no contexto em que está.
Mergulhemos nas profundezas ricas da Palavra de Deus, conservando seus princípios fundamentais, o credo cristão. Uma base para igrejas históricas deve ser os estudos bíblicos presentes nas confissões de fé registradas na história da igreja protestante e reformada, mas sem perder de vista uma construção teológica nacional sólida e bem fundamentada. Também submetamos nossas estruturas denominacionais, eclesiológicas e estratégicas a constante avaliação de sua fidelidade aos princípios bíblicos e suas implicações em nossa cultura.
Ao nos lembrarmos da Reforma Protestante, lembremo-nos de que ainda não terminou. Semper Reformandum.
Tiago Leite
¹HIEBERT, Cultural Differences and the Communication of the Gospel, p. 381.
²TUCKER. Ruth. Até aos confins da terra. São Paulo: Vida Nova, 1986.
³McGrath, Alister E. Revolução Protestante. Brasília, DF. Ed. Palavra, 2012.
4_________________________. Pag. 459-450. Brasília, DF. Ed. Palavra, 2012.
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