sexta-feira, 20 de maio de 2011

Arte, Cosmovisão e o Evangelho

Sou um ser humano dentro da minha raça, sou um cidadão dentro do meu tempo e sou um cristão com a minha fé em Cristo. Sou um cristão de um livro só, a Bíblia, e sou um ser de uma estrutura só, a humana. Assim reflito, reconhecendo que estou em um processo divino, agindo no humano que sou, para o desenvolvimento de minha salvação, minha percepção do mundo e minha missão na terra. Como todos, estou em constante contato com as manifestações culturais do meu povo, de minha época. Abaixo algumas reflexões e citações do que tenho lido e pensado sobre minha humanidade e suas competências e sobre minha espiritualidade e sua missão.

A Identidade do Cristão e a Cultura Contemporânea

A visibilidade do nosso Cristianismo. Não podemos desconsiderar a necessidade de que nossa fé seja visível aos outros através de nossa vida. A árvore se conhece pelos frutos, um cristão será percebido pelos outros por seus frutos (Mt 12:33). Somos a luz do mundo e o sal da terra. Os homens precisam ver as nossas boas obras e glorificar a Deus (Mt 5:13-16). O Sermão do Monte traz claramente o ensino de virtudes visíveis (Mt 5-7). Somos feitura dEle criados em Cristo Jesus para boas obras (Ef 2:10). Somos o corpo de Cristo, ou seja, manifestamos neste mundo a ação de Cristo na terra (1 Co 12:27). Temos que viver os frutos da luz e nos desvencilharmos das obras da carne (Gl 5:16-26). Paulo em Efésios ensina que, como nova sociedade em Cristo, manifestamos esta nova vida em nossa unidade e santidade no dia a dia. Nosso comportamento e nossos relacionamentos devem refletir esta nova vida. Tiago é muito claro ao dizer que nossa fé é visível em boas obras (Tg 2:14-26). As cartas do Novo Testamento são muito claras na implicação prática de nossa fé, se nos tornamos cristãos com certeza seremos seres humanos diferentes dos demais. Qualquer teologia que remeta a fé cristã a um caráter totalmente subjetivo e invisível, anulará a obra visível da igreja que deve ir por todo o mundo e pregar o evangelho a toda criatura e deve batizar em nome da Trindade.
O grande problema está no momento em que fatores culturais, temporais e meramente humanos são incorporados a lista do que nos identifica como cristãos. Quando inserimos nas “boas obras” aquilo que a Bíblia não insere estamos adicionando circuncisões pós-modernas, liturgias obrigatórias, sacramentos extra-bíblicos e a sacralização de tradições humanas. Estamos, também, excluindo a beleza da criação de Deus que vai além dos rudimentos da religião, estamos ignorando o ser humano em sua integralidade e em todas as suas capacidades. Desta forma, limitamos a glorificação a Deus a poucos ambientes, a poucas palavras e a poucas melodias. Neste contexto nosso cristianismo se torna autodestrutivo, porque quer levar a Deus apenas uma parte do ser humano e não ele todo.

A invisibilidade do nosso cristianismo. É preciso ter cuidado com o estereótipo de cristão. A razão do primeiro concílio da Igreja Cristã em Jerusalém girava em torno da identidade do cristão. Ser um seguidor de Cristo é ser um judeu ou praticante do judaísmo? Ser um seguidor de Cristo é ser alguém que não come carne de porco, que é circuncidado e visita o Templo em Jerusalém? A visão que Deus dá a Pedro, o discernimento que Ele dá ao multicultural apóstolo Paulo e o parecer de Tiago, caminham em direção a uma reinterpretação do que é ser cristão. Pedro apresenta o parecer do Concílio:
“Deus, que conhece os corações, demonstrou que os aceitou, dando-lhes o Espírito Santo, como antes nos tinha concedido. Ele não fez distinção alguma entre nós e eles, visto que purificou os seus corações pela fé. Então, por que agora vocês estão querendo tentar a Deus, impondo sobre os discípulos um jugo que nem nós nem nossos a antepassados conseguimos suportar? De modo nenhum! Cremos que somos salvos pela graça de nosso Senhor Jesus, assim como eles também" (Atos 15:8-11).
A liderança da Igreja na época enviou esta resolução em forma de carta para as igrejas formadas entre os gentios trazendo o efeito necessário: “Quando a leram sobremaneira se alegraram pelo conforto recebido” (Atos 15:31). A percepção da igreja primitiva promoveu conforto e alívio aos cristãos, quando separou o que era temporal, a cultura judaica do que era eterno, a ação do Espírito. Ser cristão começa com o invisível aos homens, mas percebido por Deus, começa com uma entrega e confiança completa a Jesus, começa com a ação do Espírito. O externo é conseqüência.

A Cultura Contemporânea: Mal Necessário ou Característica da Humanidade

Pensemos na expansão do cristianismo no primeiro século. Um judeu cristão, um samaritano cristão, um grego cristão, um sírio cristão, um romano cristão, cada ser humano que cresse em Cristo naquela época estava livre da expectativa de assumir as práticas, a poesia e as tradições judaicas. Os gentios convertidos poderiam continuar falando a sua língua, vestindo as suas roupas, produzindo a sua música, a sua arte, os gregos poderiam continuar produzindo a sua bela arquitetura desde que em coerência a sua fé cristã.
O cristão precisa se libertar do pecado e não de sua humanidade. Ele precisa se libertar do pecado em sua humanidade e não propriamente da sua humanidade. Foi Deus quem criou as capacidades de nossa humanidade, foi Deus quem fez o homem e suas competências.

O que é Cultura: Michael Horton define cultura como “a atividade humana que intenciona o uso, o prazer e o desenvolvimento da raça humana”.

O relacionamento entre o Cristão e a Cultura: Horton afirma que há cinco posições:

1. Cristo contra cultura: o cristão não deve viver sobre a influência da cultura em geral. Este mundo está contaminado pelo pecado e é governado por Satanás. Tudo que a cultura deste mundo produz deve ser considerado mundanismo para o crente. Portanto, o crente deve de algum modo viver alheio a cultura deste mundo.

2. Cristo da cultura: Nessa posição Cristo é remodelado ou deturpado de sua personalidade original para atender as expectativas do intelectual moderno. O Filho de Deus que veio ao mundo é visto mais como “poeta, moralista ou filósofo do moralismo alemão”. Nesta posição, não há, na verdade, um relacionamento entre o cristianismo bíblico e a cultura, mas uma sobreposição da cultura anulando o cristianismo.

3. Cristo acima da cultura: Esta posição vê a questão de um modo mais vertical. Pensa mais em termos de Deus e o homem do que entre Cristo e a cultura. Não há tentativa de negar a cultura ou de anular o cristianismo pela assimilação completa da cultura. O que se tenta aqui é sintetizar Cristo e a cultura. O principal proponente desta posição é Tomás de Aquino.

4. Cristo em paradoxo com a cultura: Esta posição sustenta que não existe maneira de sintetizar o Cristianismo e a Cultura, porque estas duas forças estão em esferas diferentes da vida do ser humano. O Cristianismo está na esfera da religião e a Cultura está na esfera dos conhecimentos estéticos, morais e intelectuais. “Nenhuma esfera deverá reger a outra, e nem atacar a outra. São simplesmente esferas diferentes de atuação com propósitos diferentes”.

5. Cristo transformador da cultura: Esta posição sustenta que os cristãos devem ser agentes transformadores da sociedade. Os cristãos desta linha querem ir além do seu papel de evangelizar os perdidos, querem mudar as circunstâncias em que vivem, crendo que a cultura está de um modo como não deveria ser. Teologicamente, esta posição enfatiza o fato de que Deus criou todas as coisas, sendo o universo bom essencialmente. O problema do mal no mundo dá-se ao fato de que o mundo está caído e as criaturas pessoais estão em franca oposição a Deus. Este mundo, porém, aguarda a sua redenção. Os cristãos, que fazem parte da criação redimida, podem ser um instrumento nas mãos de Deus para melhoria do mundo atual.
Cito John Stott que ao, comentar o sermão do monte, nos lembra do desafio de sermos sal e luz. A contracultura pregada por John Stott não é a negação da cultura humana, mas a consciência de sua contaminação pecaminosa e da necessidade de ser modificada pelos cristãos. Em seu livro, Contra Cultura Cristã ele afirma:
“Com demasiada freqüência, os cristãos evangélicos têm interpretado a sua responsabilidade social em termos de apenas ajudar às vítimas de uma sociedade doente, nada fazendo para mudar as estruturas que provocam os acidentes. Exatamente como os médicos não se preocupam apenas com o tratamento dos pacientes, mas também com a medicina preventiva e a saúde pública, nós deveríamos nos preocupar com o que poderíamos chamar de "medicina social preventiva" e padrões mais elevados de higiene moral. Por menor que seja a nossa contribuição, não podemos optar pela dispensa da busca da criação de melhores estruturas sociais, que garantam a justiça na legislação e o cum¬primento das leis, a liberdade e a dignidade do indivíduo, os direitos civis para as minorias e a abolição da discriminação social e racial. Não devemos nem desprezar essas coisas nem fugir de nossa responsabilidade para com elas. Isso faz parte do propósito de Deus para o seu povo. Sempre que os cristãos são cidadãos conscientes, agem como sal numa comunidade. Como Sir Frederick Catherwood expôs em sua contribuição ao simpósio Is Revolution Change? (A Revolução Muda Alguma Coisa?): "Tentar melhorar a sociedade não é mundanismo, mas amor. Lavar as mãos diante da sociedade não é amor, mas mun¬danismo.(pag. 32)"
Abrahan Kuyper afirmou: “Não há um único centímetro quadrado em todos os domínios da existência humana sobre o qual Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: é meu!”. O teólogo brasileiro Franklin Ferreira falando sobre Abraham Kuyper afirma: “Precisamos de um evangelho integral, que tenha uma palavra de juízo e graça para todas as esferas da vida humana, manifestando o Reino de Deus em nosso mundo. Um homem que é um modelo como um evangélico envolvido na política é Abraham Kuyper, e, segundo D.M. Lloyd-Jones, a obra deste homem “se ergue como um grande monumento à única oposição verdadeira a toda a idéia que está por trás da Revolução Francesa.”

O que a Bíblia nos fala a respeito da cultura, Horton afirma:
1. A Bíblia diz que, quando a cultura contradiz a verdade revelada, ela deve ser combatida;
2. A Bíblia diz também que, quando um costume cultural grifa um princípio eterno, este costume cultural é recomendado;
3. A Bíblia diz, igualmente, que tudo foi criado por Deus, sendo essencialmente e originalmente bom, mas que o pecado contaminou a criação e que Deus dispensa sua graça aos homens para que eles realizam algo de bom neste mundo;
4. A Bíblia relata exemplos de pessoas que tinham muito conhecimento da cultura em que estavam inseridas e permaneceram fiéis a Deus, sendo muito importantes na História da Salvação (José do Egito, Daniel, Paulo e o próprio Cristo).

Conclusão de Horton:
- Um cristão pode se envolver com a cultura, porque a cultura pode ser uma fonte de verdade desde que ela não contradiga os dados bíblicos, à razão e se aplique à esfera a que aquela esfera cultural se proponha a abordar.
- Além disso, quando cristãos se isolam da cultura, eles acabam criando uma cultura de segunda classe e deixam de interagir com a cultura a fim de melhorá-la.
- Outro motivo por que o cristão deve se envolver com a cultura contemporânea deste modo crítico e sábio diz respeito a tarefa dos cristãos envolvidos com o ministério da Palavra: os obreiros podem conhecer melhor os erros ideológicos para combatê-los em suas próprias vidas e ministérios e na vida de suas ovelhas, e podem tirar conclusões éticas mais acertadas através de seu conhecimento bíblico e cultural.


A Cultura Seria Apenas um Mal Necessário?

A preocupação puritana com o afastamento do cristão do “mundanismo” tem inúmeras contribuições para aqueles que querem ser fiéis seguidores de Cristo. Mas como todo ideal, teve suas intenções sujeitas a interpretações particulares e a extremos prejudiciais. Entendeu-se, por muitos, que os cristãos precisavam justificar tudo em suas vidas pela utilidade espiritual ou evangelística segundo as concepções tradicionais sobre o que seria espiritual ou evangelístico. Surgiu a idéia de que o envolvimento dos cristãos com o mundo seria um mal necessário. Cito novamente Michael Horton:
“No máximo, a educação, atividades, vocações ou buscas seculares eram um mal necessário -- para se ganhar a vida, para ter com que dar o dízimo e dar para missões. Na pior das hipóteses, distraíam da vida cristã. Assim, os que queriam ser empresários procuravam empregos em organizações e agências cristãs. Se descobríssemos um pequeno Rembrandt num jovem artista da igreja, nós o colocávamos como responsável pelo quadro de avisos e (se ele fosse realmente bom) deixávamos que pintasse o batistério. Esperava-se dos nossos cientistas que promulgassem a causa do criacionismo -- mesmo que a cosmologia ou as ciências biológicas e antropológicas não fossem suas especialidades. Dos músicos esperava-se que entrassem (ou formassem) na banda de louvor ou fizesse uma turnê pelas igrejas do país -- o tamanho da igreja, claro, dependia do grau de talento do artista. Através dos anos, temos criado os nossos próprios guetos de artistas, super estrelas e apresentadores, com versões cristãs de tudo que há no mundo.
A Renascença, e de modo especial, os tempos da Reforma foram reações ao modo medieval de encarar a vida. Para a igreja medieval, filosofia, arte, música e ciência se confundiram tanto com a religião que não dava para distinguir uma da outra. Se alguém quisesse ser artista, mais uma vez procurava-se a igreja para um emprego, como a arte era ferramenta da pregação ou do ensino da vida e dos tempos de Jesus e seus apóstolos. E os sofrimentos de Copérnico e Galileu nos lembram do perigo de dizer mais do que a Bíblia diz sobre teorias científicas específicas. A Reforma libertou homens e mulheres cristãos para seguir com dignidade e respeito os seus chamados divinos no mundo, sem ter que justificar a utilidade desses chamados à igreja ou ao empreendimento missionário. A vocação era dom da criação. Até mesmo os não cristãos, como quem carrega a imagem de Deus, possuíam este chamado divino. Crente e incrédulo eram igualmente responsáveis por desenvolver seu trabalho com excelência -- um reconhecendo a Deus como autor e alvo dessa excelência, e o outro servindo a Deus com seus talentos apesar de sua recusa em reconhecê-lo como doador e alvo de tudo. Em contraposição à visão monástica do mundo, a Reforma promulgava uma teologia que abarca o mundo, um dos fatores principais no desenvolvimento da ciência, da Era Dourada da arte holandesa e da literatura inglesa e escocesa, a libertação da igreja da política, a difusão universal da leitura e da escola pública, e o grito por liberdades civis em contraposição ao fundo da tirania vigente. A Reforma teve suas imperfeições, mas os temas bíblicos por ela recuperados trouxeram de volta ao povo de Deus um senso de pertencer a este mundo durante o tempo que Deus nos deu, mas pertencer dentro de, e não como parte do mundo.
A pressão de justificar a arte, ciência e a diversão em termos do seu valor espiritual ou sua utilidade evangelística acaba prejudicando tanto o dom da criação quanto o dom do Evangelho, desvalorizando o primeiro e distorcendo, no processo, o segundo.
Por exemplo, música cristã é freqüentemente uma desculpa para artistas inferiores conseguirem vencer numa subcultura cristã que imita o brilho e glamour do entretenimento secular, inclusive suas próprias cerimônias de premiação e seu ambiente de super estrelato. Pode ser que essa não seja a intenção por parte de muitos artistas que querem contribuir ao cenário da música cristã contemporânea, mas a indústria acaba produzindo, na maioria, imitações nada criativas, repetitivas, superficiais da música popular. Essas pressões, porém, para se criar versões distintamente cristãs de tudo no mundo (ou seja, na criação), pressupõem que exista algo essencialmente errado com a criação -- e essa é uma pressuposição teológica que tem influência muito maior na formação das atitudes evangélicas em todas essas esferas do que geralmente se admite” (extraído da introdução do livro: O Cristão e a Cultura).

A Arte: Um Fruto do Pecado ou Uma Qualidade da Humanidade

Alguns questionamentos para nossa reflexão:
Se o homem não tivesse caído não teríamos poesia romântica (e Cantares?), belos quadros pintados, lindas músicas compostas, escultura, teatro, dança, a arte da ciência, a arte da escrita? Toda multiplicidade cultural só existe por causa do pecado ou está como tudo mais afetado pelo pecado? Se não tivéssemos pecado não teríamos rítmicos musicais diferentes, estilos diferentes? O samba brasileiro, os tambores africanos, o jazz e o blues americano, os clássicos europeus são méritos do pecado? Só o pecado pode alimentar a arte? Só o estado conflituoso do mundo poderia gerar a multiplicidade cultural? Não seria a capacidade criativa do homem uma competência dada por Deus, que como tudo mais foi afetada pelo pecado, mas sob o Espírito pode ser usado para a glória de Deus.
Eliminamos tudo o que o pecado afetou, ou os consagramos? Todas as competências da nossa humanidade foram comprometidas pelo pecado, mas não eliminadas por ele. Adão depois da queda não se transformou num “devoto” de Deus em ininterrupta “postura” de adoração e constante oferta de sacrifícios animais. Adão continuou exercendo sua competência de criar, arar o solo, plantar, colher, sorrir e amar. O pecado afetou nossa humanidade, mas não a eliminou.
A nossa humanidade não agride a Deus, o pecado nela sim. Há beleza em nossa essência mas não perfeição. Há valor em nossas habilidades apesar de não nos redimirem diante de Deus. O que seríamos se não tivéssemos pecado, o que faríamos? Será que nossa humanidade essencialmente ainda não carrega a imagem divina? A criatividade divina, sua habilidade artística, seu senso de beleza e de harmonia ainda estão parcialmente presentes no homem, afinal ainda somos homens.
O que Deus aprecia em nós? Deus gosta de nossa criatividade, de nossa manifestação artística? Deus não se sente glorificado quando um homem no auge de sua humanidade produz um tratado científico fruto da inteligência implantada por Ele próprio? Nascemos para o louvor da sua glória. Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de suas mãos, quando, mesmo sem a liturgia de um culto religioso, são belos, harmoniosos e fiéis em sua função.


O Lugar da Arte na Vida Cristã

Francis Schaeffer em sua obra A Arte e a Bíblia, diz com propriedade:
“O senhorio de Cristo deve incluir o interesse pelas artes. Qual o lugar da arte na vida cristã? Será que a arte – especialmente as belas artes da pintura e da música – é simplesmente uma forma de fazer a mundanalidade entrar pela porta dos fundos? Sabemos que a poesia pode ser usada para louvar a Deus nos Salmos e talvez até em hinos modernos. Mas e a escultura e o teatro? Será que há espaço para essas formas de arte também na vida cristã? Não seria melhor o cristão fixar o olhar apenas nas “coisas religiosas” e esquecer a arte e a cultura? Como cristãos evangélicos, tendemos a dar pouca importância à arte. Consideramos os outros aspectos da vida humana mais importantes. Apesar de nosso discurso constante sobre o senhorio de Cristo, limitamos sua atuação a uma pequena área da realidade. Confundimos o conceito do senhorio de Cristo sobre a totalidade do ser humano e sobre todo o universo e não nos apropriamos das riquezas que a Bíblia oferece para nós mesmos, nossa vida e nossa cultura.
O senhorio de Cristo sobre a vida como um todo significa que não há áreas platônicas no cristianismo, nem dicotomia ou hierarquia entre corpo e alma. Deus fez tanto o corpo como a alma, e a redenção é para o homem todo. Os evangélicos têm sido criticados, com razão, por estarem sempre tão interessados em ver almas sendo salvas e indo para o céu, e não se importam muito com as pessoas de maneira integral. No entanto, a Bíblia deixa quatro coisas muito claras:
1. Deus fez o homem todo;
2. Em Cristo o homem todo é redimido;
3. Cristo é Senhor do homem todo agora e Senhor da vida cristã toda;
4. No futuro, quando Cristo retornar, o corpo será ressuscitado dentre os mortos e o homem todo terá uma redenção completa. ”
É a partir desse sistema que devemos compreender o lugar da arte na vida cristã.

O que é uma Atitude Cristã?

O cristão é fiel a Cristo não só quando declara sua fé em Cristo, mas também quando é coerente com sua fé em Cristo, o que talvez seja a melhor declaração cristã. Como alguém já afirmou que “o cristão é a Bíblia que o mundo lê”. Exemplo de atitudes cristãs não religiosas:
- Um médico cristão pode exercer com destreza, zelo e responsabilidade sua função médica, e ser fiel a Cristo;
- Um professor cristão de história pode exercer com fidelidade e honestidade o ensino do conteúdo passado aos alunos e ser fiel a Cristo;
- Um pintor que trabalha com paisagens e cenas reais do cotidiano pode expressar sua arte e ser fiel a Cristo;
- Um músico pode tocar belas harmonias e melodias e ser fiel a Cristo;
- Um compositor pode escrever belas letras e harmonias e ser fiel a Cristo;
- Um poeta pode escrever belas poesias sobre diversos temas da vida e ser fiel a Cristo;

Uma Perspectiva Cristã Sobre a Arte (Francis Schaeffer: A Arte e a Bíblia)

1. A arte tem valor em si mesma: “A arte não é algo que meramente analisamos o valor por causa do seu conteúdo intelectual. É algo para ser desfrutado. A arte tem valor porque a toda obra de arte representa um trabalho criativo e a criatividade tem valor porque Deus é criador. A criatividade tem valor porque Deus é criador”.
A natureza de uma obra de arte:
a. Poder ser tida como algo que simplesmente existe e não pode ser analisada;
b. Opera somente a materialização de uma mensagem sobre o mundo, o artista ou qualquer outra coisa;
c. O artista produz uma obra de arte, esta se soma ao conjunto de sua obra que demonstra sua Cosmovisão.

2. As formas de arte fortalecem a Cosmovisão: não importa qual seja a cosmovisão, se ela é verdadeira ou falsa, se apresentada em forma de arte será ampliada. Ex. podemos memorizar mais facilmente um texto se for musicado.

3. Uma obra de arte que não se utiliza de vocabulário simbólico e definições padrões perde uma dimensão da arte. Um poeta pode utilizar a linguagem com riqueza, como Shakespeare, mas sua obra será compreensível porque está dentro de convenções de linguagem. Fazer uma arte fora do vocabulário simbólico não é amoral ou anticristão, mas é limitada por sua abstração e inteligível.

4. O fato de algo ser uma obra de arte não o torna sagrado. Como cristãos precisamos entender que o simples fato de um artista retratar uma cosmovisão por escrito ou numa tela, não significa que devemos automaticamente aceitar sua cosmovisão. A verdade de uma cosmovisão apresentada por um artista deve ser julgada à parte de sua grandeza artística.

5. Quatro padrões de julgamento de uma obra de arte:
1. Excelência técnica: o artista que tiver alto nível de excelência técnica deve ser reconhecido, ainda que discordemos da cosmovisão dele;
2. Validade: um artista precisa ser honesto consigo mesmo e com sua cosmovisão. Se faz sua arte apenas por dinheiro ou por causa de um cliente então seu trabalho não tem validade;
3. Conteúdo intelectual, a cosmovisão que está sendo comunicada: no caso dos cristãos, a cosmovisão comunicada por meio da arte precisa ser vista sob a ótica das Escrituras. Uma vez que o trabalho de um artista reflete sua cosmovisão, um artista cristão será avaliado à luz da cosmovisão cristã. Alguns artistas podem não saber que estão conscientemente comunicando uma visão, porem as cosmovisões se manifestam. Seja como for, esteja o artista consciente ou não da cosmovisão, se ela estiver presente, deve ser submetida ao julgamento da Palavra de Deus.
Dois pontos importantes aqui: A Responsabilidade da Arte por seu Alcance
I – Mesmo quando algo falso ou imoral é expresso por meio de uma arte de alta qualidade, isso pode ser mais destrutivo e devastador do que se fosse comunicado por meio de uma arte de qualidade inferior ou de uma afirmação prosaica. Ex. Zen-budismo cuja mensagem é que o mundo não é nada e o ser humano não é nada sendo propagado através de belas poesias e melodias acaba tendo um forte efeito.
II – É possível que um escritor ou pintor não-cristão escreva ou pinte de acordo com uma cosmovisão crista ainda que ele mesmo não seja cristão.
4. A integração entre o conteúdo e o veículo: nas valorosas obras de arte há uma correlação entre o estilo e o conteúdo. Ex. poesia “A terra devastada” de Ts Eliot, poema composto por fragmentos de vários escritos adotando no veículo a forma fragmentada expressa no conteúdo.
6. A Arte pode ser usada para todo tipo de mensagem da pura fantasia a realidade. Porque algo tem a forma de uma obra de arte não quer dizer que não possa ser um fato real.

7. Existem estilos de arte em transformação: é perfeitamente legítimo que um cristão rejeite intelectualmente uma obra de arte específica por saber o que está sendo dito por ela. Porém é diferente rejeitar uma obra de arte simplesmente porque seu estilo é diferente daquele com o qual estamos acostumados. Os estilos artísticos mudam e não há nada de errado nisto.
Cada obra de arte em cada cultura deve buscar sua própria relação entre cosmovisão e estilo.

O Estilo da Arte Cristã
1. Deve ser a arte do século atual. A arte muda, a linguagem muda.
2. Deve ser uma arte que varia de país para país. Nada de forçar uma cultura.
3. O conjunto de obras de um artista cristão deve refletir a cosmovisão cristã.

8. Formas de Arte Moderna e a Mensagem Cristã:
a. Separando estilo de mensagem. Não existem estilos ruins. Qual seria o estilo cristão de música? (Sugestão de Leitura: Estilos de Louvor de Paul Basden).
b. O feedback do artista cristão. As pessoas tem compreendido o que o artista cristão está fazendo, sua mensagem, sua interpretação cristã do mundo, sua cosmovisão? Todo artista cristão deve estar consciente da “arma” que tem em suas mãos, a arte. Através dela ele pode evidenciar a visão cristã da vida, instigar a curiosidade dos não cristãos e inspirar muitos a buscarem o Deus Criador e a Salvação em Jesus. Todo artista cristão, como todo cristão em sua área profissional, precisa auto-analisar a sua arte, o seu trabalho, à luz desta missão.

9. A cosmovisão cristã: os extremos, ênfase no tema maior, produzem teologia da prosperidade e a ênfase no tema menor produz a teologia dualista (terra má, céu bom).
Tema menor: “O cristianismo e sua arte, podem encontrar o tema menor: o homem está perdido, e vive uma existência anormal”.
O cristianismo e sua arte devem reconhecer este tema, da derrota, da dor, da tragédia da vida, num momento aonde só se canta sobre vitórias e bênçãos... Este aspecto deve ser considerado seriamente pela arte.A apostasia de muitos jovens se dá exatamente por causa de “uma noção de cristianismo otimista e romancista”.
Tema maior: a arte deve veicular o otimismo da resposta a todo este caos. O resgate integral do homem, em toda a sua integralidade. “O artista e arte deve expressar o amor pelo mundo dando a resposta em uma cosmovisão cristã integral e madura”.

10. O cerne da arte cristã: “A arte cristã não tem que necessariamente ser sempre religiosa”.
“A criação de Deus – as montanhas, as árvores, os pássaros e seus cânticos, o homem a mulher e seu amor mútuo – representa um tema para arte não especificamente religiosa” Francis Schaeffer. Ele cita o livro de cantares como exemplo disto.
A Arte no Antigo Testamento nem sempre era “fotográfica”. Horton destaca que havia romãs azuis nas vestes do sacerdote quando ele adentrava o Santo dos Santos, embora na natureza não exista romãs azuis (Ex 28:33). Os cristãos não podem se sentir ameaçados pela fantasia e imaginação, as romãs são vermelhas na natureza.
“A arte cristã é a expressão da totalidade da vida da pessoa completa; é o homem total, totalmente considerado. O cristão tem de expressar em sua arte a totalidade da vida”. Para Schaeffer o porquê do cristianismo e os artistas cristãos estarem produzindo tão pouca arte é “porque temos esquecido muito do que o cristianismo afirma acerca da arte e da criação de Deus”.

11. Uma obra de arte individual e o conjunto de obras de um artista
Não podemos julgar a obra de um artista por apenas uma peça, mas olhando o conjunto de sua obra. Não tenha medo de escrever um poema de amor apenas por não conseguir colocar nele toda a mensagem cristã. Ainda, assim, se alguém é artista, seu objetivo deve ser produzir um conjunto amplo e profundo de obras durante sua vida.

Pontos Importantes levantados sobre a Arte por Schaeffer

1. “A arte faz parte da condição humana. A criatividade constitui um aspecto de distinção entre humano e não humano”. “A criatividade está intrínseca na nossa condição humana” Francis Schaeffer. Integrar a arte faz de nós seres humanos por completo.

2. Nem toda criação é uma arte de qualidade
Este ponto é interessante porque o que se tem feito não tem crivo nenhum já que pressupõe-se que é bom já que é feito por um cristão. A arte não é apadrinhada do cristianismo, como citou Kuyper.

3. A criatividade foi dada por Deus aos homens.
“O criador repartiu talentos e habilidades entre todos os seres humanos”.“A arte tem valor como criação porque o homem é feita a semelhança de Deus e assim pode... criar”.
Para Schaeffer a arte é uma coisa boa porque é Dom de um Deus criativo, inventivo. Como cristãos então precisamos parar de pensar que a única arte boa é a feita por “cristãos”. Prefiro escutar uma boa bossa nova, a escutar “Cachoeira de Poder” da Cassiane. Prefiro ler um bom poema de Carlos Drummond de Andrade a perder o meu tempo com a “Divina Revelação do Inferno” de Mary Baxter. Prefiro a beleza de uma competência humana exercida com maestria a mediocridade artística (e teológica) de muitos.
Deus deu dons aos homens, e a arte foi repartida indistintamente aos homens. Os homens mesmo não salvos, ainda têm valor e a historia da arte está aí dando testemunho disto!

Os limites da Cultura para o Cristão
Nenhuma cultura humana é desculpa para o pecado. Somos humanos, mas humanos consagrados, escravos de Cristo. Então quando uma música, poesia, dança, teatro, literatura e qualquer outra manifestação cultural afronta os limites dos princípios BIBLICOS do cristão, chegou o limite. Existe um limite. Hoje temos igrejas promovendo boates e este mercado “gospel” brasileiro tem levado muitos cristãos a relaxarem nos padrões morais da Palavra de Deus. Somos cristãos no todo, em todo tempo, lugar e circunstância.
Todo cristão precisa ser fiel a Cosmovisão Cristã do mundo em tudo o que faz. Não somos libertos da escravidão do pecado para a libertinagem de quem não tem norte, não tem leis, não tem padrões. Nosso Deus estabelece limites. Nosso Deus exige fidelidade. Todo cristão precisa glorificar a Deus em tudo o que faz. Todo cristão precisa ser fiel a Palavra de Deus. Quando uma música afronta os valores cristãos ensinados na Bíblia, quando uma dança em seu movimento corporal excita pensamentos e atitudes fora dos limites da Palavra de Deus, quando um livro seja de qualquer gênero sugere verdades e valores diferentes dos valores do reino o limite chegou.

Cuidado, Não Subestime a Vulnerabilidade do Seu Coração
Se o cristão, o artista cristão não estiver alicerçado na Palavra, ou seja, meditando nela individualmente, orando e se consagrando irá se perder. Muitos artistas tem caído moralmente porque sem vida com Deus não tem discernimento e resistência as tentações culturais. Não vou convidá-los a se isolarem da cultura do mundo, a se colocarem reclusos, assim não vão brilhar e assim vão desprezar a beleza da criação de Deus a beleza ainda presente na humanidade criada por Deus, e vão desprezar as próprias competências humanas dadas pelo Criador. Mas, reafirmo que quem ouve as Palavras de Cristo e não pratica constrói a sua vida sobre a areia, e vai desmoronar.
Um Exemplo desta nossa vulnerabilidade foi Salomão que em toda a sua sabedoria foi levado pela vontade de suas mulheres cananitas, a ponto de autorizar o sacrifício de próprios filhos no altar ao Deus Moloque (1 Reis 11:7-8).
Atentemos a exortação da Palavra: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” Jeremias 17:9. Precisamos de Artistas que leiam a Bíblia e oram, que tenham hábitos devocionais, senão serão engolidos pela cosmovisão anticristã deste mundo. Afinal, “destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?” Salmo 11:3.



Referências Bibliográficas:

BASDEN, Paul. Estilos de Louvor. Mundo Cristão.
HORTON, Michael S. O Cristão e a Cultura. Cultura Cristã.
STOTT, John. Contra Cultura Cristã. A Mensagem do Sermão do Monte. ABU.
SCHAEFFER, Francis. A Arte e a Bíblia. Ultimato.


Tiago Leite

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